Homem ficou 2h preso em incêndio em Hong Kong: "Pensei que ia morrer"

William Li esteve duas horas dentro de um dos edifícios que pegou fogo em Hong Kong, na China. O homem de 40 anos contou que pensou que ia morrer, chegando a se despedir da família e amigos

William Li estava de folga e, por isso, em casa quando recebeu uma chamada da sua esposa: “Há um incêndio. Precisas de sair daí”, disse a mulher. Ela não parecia nervosa nem preocupada e não havia nada a indicar que a situação fosse séria: Li não sentia o cheiro de fumaça e os alarmes não tinham disparado.

O homem estava em um dos edifícios do bairro de Hong Kong que pegaram fogo durante dois dias, em um incêndio que se tornou o mais mortífero na história da região nos últimos 100 anos. Até ao momento, há 128 mortos confirmados.

“Eu ainda demorei alguns minutos a me vestir e a me preparar para sair do apartamento”, contou Li ao New York Times. “Quando abri a porta, a fumaça entrou de repente. A minha primeira reação foi fechar logo a porta.”

Foi aí que retribuiu a chamada à mulher, dizendo-lhe que não conseguia sair da casa que ambos moravam. “Ela começou a chorar convulsivamente. Estava pensando no pior cenário possível: eu ia morrer.”

Li não entrou em desespero – em vez disso, pôs mãos à obra. Agarrou nas toalhas que tinha no apartamento e usou-as para tapar as brechas por baixo das portas para tentar impedir a fumaça de entrar. Pouco depois, começou a ouvir vozes no corredor.

O homem de 40 anos colocou um pedaço de tecido molhado tapando a boca e saiu do apartamento. O corredor estava escuro como o breu. Li ainda tentou ligar a lanterna do seu celular, mas nem isso ajudou. Nem um minuto depois de ter saído do apartamento, a sua garganta começou a arder e os olhos a lacrimejar – a fumaça não perdoava.

Li continuou em frente, mesmo assim, seguindo o som das vozes até encontrar um casal na casa dos 60.

“Eu os conduzi através do fumaça de volta ao meu apartamento, usando a parede para me guiar até lá”, recordou. “Porque é que estavam fora? Tinha mais alguém?”, perguntou Li ao casal.

A janela do apartamento dos seus vizinhos tinha se incendiado e o casal, com receio, fugiu para o corredor, pensando que essa era a sua melhor opção. Lá, ouviram uma cuidadora profissional chamando pela idosa de quem tomava conta e tentaram seguir a voz, mas, de repente, o som cessou e o casal viu-se perdido sem saber o que fazer.

“Após viver aqui durante 40 anos, eu conheço o edifício muito bem”, continuou Li, detalhando todas as saídas do prédio. “Há dois lances de escadas em todos os pisos. Um vai dar à entrada e outro às traseiras. Os meus vizinhos disseram-me que a porta de trás costuma estar trancada, e a minha mulher, que agora estava à frente do prédio, disse-me que a entrada já estava em chamas”, recordou.

Na prática, não havia forma de saírem do edifício – não sem ajuda.

Li ligou então para as autoridades, informando-os de onde estava e o que acontecia. “Nós vamos enviar alguém para ir resgatar vocês”, teriam dito do outro lado da linha. Enquanto isso, os três deveriam ficar perto do chão e preservar a sua energia.

“Da nossa janela conseguíamos ver as mangueiras de incêndio apontadas para os pisos acima de nós. Nós fizemos sinal aos bombeiros, mas eles não nos conseguiam ver”, contou Li. 

“Pensei que ia morrer”

Em uma fase inicial, o grupo ficou calmo. Mas, pouco a pouco, o incêndio começou a alastrar e o apartamento, até então, o local mais seguro, começou a apresentar sinais de desgaste.

O cheiro de fumaça e a queimado começou a impregnar-se na casa. Pouco depois, o casal, que estava descansando no quarto, saiu alertando que a espuma à volta da janela tinha se incendiado – o mesmo que lhes tinha acontecido no seu próprio apartamento.

“Naquele momento, eu pensei que ia morrer. Eu divido o quarto com a minha mulher e com os meus dois filhos. Há três colchões lá e montes de cobertores. Eu sabia que se a janela explodisse, o fogo ia se alastrar rapidamente.”

Li começou a se preparar para o pior. No WhatsApp, família e amigos do homem iam recebendo mensagens de adeus, onde lhes pedia para ajudar a sua mulher e filhos depois de ele partir.

Terminadas as despedidas, os três decidiram tentar, uma última vez, chamar a atenção dos bombeiros usando as lanternas dos telemóveis para sinalizar onde estavam. Desta vez, o esforço não foi em vão.

Os agentes viram o grupo e Li apressou-se a apontar para a janela em chamas. Os bombeiros apontaram, de imediato, as mangueiras ao foco de incêndio, apagando o fogo e dando tempo ao grupo.

“No início, eles tiveram dificuldade para colocar a escada de incêndio na nossa unidade – o andaime estava no caminho e havia detritos caindo dos andares superiores. Pouco depois das 17h, eles finalmente chegaram à nossa janela”, recordou Li.

A mulher do casal insistiu para que ele fosse primeiro, mas Li respondeu: “Não, vá você primeiro. Eu sou mais jovem”.

Primeiro foi ela, depois o marido e Li ficou para último.

“Tudo o que eu tinha estava virando pó”

“Durante uns minutos, Li ficou sozinho no apartamento. O ambiente era muito sombrio”, recordou. “Olhei à minha volta para ver o que podia levar comigo. Queria levar tudo, mas não podia levar nada: a janela era muito estreita, com espaço suficiente apenas para uma pessoa sair na diagonal”.

Li conseguiu sair do edifício em chamas com o relógio da mulher e algum dinheiro que tinha em casa.

“Quando subi a escada, senti como se o tempo tivesse desacelerado. Fiquei triste por deixar a minha casa para trás. Estava encharcado pelas mangueiras dos bombeiros e sentia muito frio”, contou Li. “Parecia que o céu estava caindo. Tudo o que eu tinha estava virando pó.”

No chão, e de volta à segurança, os bombeiros levaram-nos para um local mais calmo e deram-lhes uma bebida para se hidratarem e recuperarem as forças. As ruas estavam bloqueadas devido ao incêndio e as ambulâncias não conseguiam chegar ao local.

“Os bombeiros disseram que podíamos sair por conta própria. O casal e eu trocamos números [de celular e seguimos caminhos diferentes.” Li foi ao encontro de sua família. Os filhos choravam muito.

Ao todo, William Li esteve duas horas no prédio em chamas.

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