Do "não" ao uso das bases à ameaça de Trump: A tensão entre Espanha e EUA

Espanha rejeitou o uso de bases militares pelos Estados Unidos para os ataques ao Irã – e criticou a ofensiva -, levando Donald Trump a ameaçar com um bloqueio comercial: “Parar tudo o que está relacionado com Espanha, todos os negócios relacionados com Espanha”. A Europa já reagiu – mostrando solidariedade com o governo de Pedro Sánchez – com a Comissão Europeia a garantir estar “pronta para agir”. Mas como se desenrolou esta tensão entre Espanha e os EUA?

A Espanha rejeitou o uso de bases militares pelos Estados Unidos para ataques contra o Irã — ao mesmo tempo em que condenou a ofensiva —, o que provocou uma resposta do presidente Donald Trump, que ameaçou impor um bloqueio comercial, suspendendo “tudo o que estiver relacionado com a Espanha, todos os negócios relacionados com a Espanha”.

As reações não demoraram, e a Comissão Europeia garantiu nesta quarta-feira, 4 de março, que está pronta para agir e proteger os interesses comerciais da União Europeia.

 
O que está acontecendo entre Espanha e Estados Unidos?
Na última segunda-feira, dia 2, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, afirmou que o país não permitirá que suas bases militares — operadas conjuntamente por EUA e Espanha, mas sob soberania espanhola — sejam utilizadas para ataques contra o Irã.

“As bases espanholas não estão sendo usadas para essa operação e não serão usadas para nada que não esteja previsto no acordo com os Estados Unidos ou que não esteja de acordo com a Carta das Nações Unidas”, disse Albares em entrevista à emissora espanhola Telecinco, citada pela Reuters.

Com isso, quinze aeronaves norte-americanas foram obrigadas a deixar as bases de Rota (em Cádiz) e Morón (em Sevilha), no sul da Espanha, desde que EUA e Israel lançaram ataques contra o Irã no último fim de semana.

A ministra da Defesa, Margarita Robles, afirmou que as aeronaves — principalmente aviões-tanque de reabastecimento aéreo, como o Boeing KC-135 Stratotanker — estavam permanentemente estacionadas na Espanha.

Inicialmente, o Reino Unido também havia recusado permitir o uso de suas bases para um ataque ao Irã, mas mudou de posição no domingo, quando o primeiro-ministro Keir Starmer autorizou a medida sob o argumento de “autodefesa coletiva de países amigos e aliados de longa data e proteção de vidas britânicas”.

Ainda na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Sa’ar, criticou a posição do governo espanhol e questionou: “Isso é estar do lado certo da história?”

No dia seguinte, 3 de março, em coletiva em Madri, Albares reiterou a condenação da Espanha aos ataques dos EUA e de Israel ao Irã, por se tratar, segundo ele, de uma operação unilateral, fora do direito internacional e da Carta das Nações Unidas.

Ele também afirmou que os ataques não se enquadram no acordo bilateral entre Espanha e EUA para o uso das bases militares espanholas, destacando que o país não espera “nenhuma consequência” ou retaliação por essa posição.

 
Trump ameaça: “Parar tudo”

A resposta norte-americana veio na terça-feira, quando Trump ameaçou cortar todo o comércio com a Espanha devido à posição do governo liderado pelo primeiro-ministro Pedro Sánchez.

“Parar tudo o que estiver relacionado com a Espanha, todos os negócios relacionados com a Espanha”, declarou Trump na Casa Branca, durante encontro com o chanceler alemão Friedrich Merz.

Além da postura espanhola sobre o Irã, Trump também criticou a decisão da Espanha de não elevar para 5% do PIB o orçamento de Defesa, como defendido por outros membros da NATO.

O governo espanhol respondeu que seus acordos comerciais com os EUA são feitos dentro do marco da União Europeia.

Fontes oficiais afirmaram que a Espanha é uma potência exportadora da UE e mantém com os EUA uma “relação comercial histórica mutuamente benéfica”. Acrescentaram ainda que, caso haja revisão dessa relação, ela deverá respeitar a legalidade internacional e os acordos bilaterais entre UE e EUA.

“Não vamos agir por medo de represálias”

Nesta quarta-feira, Pedro Sánchez se pronunciou diretamente sobre a tensão com os EUA. Ele afirmou que é contra a guerra no Oriente Médio iniciada pelos ataques de EUA e Israel ao Irã e que não mudará de posição “simplesmente por medo de represálias”.

“Repudiamos o regime do Irã, que reprime e mata brutalmente seus cidadãos, especialmente as mulheres, mas também rejeitamos o conflito e pedimos uma solução diplomática e política”, declarou.

Segundo Sánchez, a posição espanhola é “coerente” com a adotada em relação a outros conflitos internacionais, como Ucrânia, Gaza, Groenlândia e Venezuela.

“Não vamos ser cúmplices de algo que é ruim para o mundo e contrário aos nossos interesses simplesmente por medo de represálias”, afirmou.

Ele também ressaltou que a Espanha é membro pleno da União Europeia, da NATO e da comunidade internacional, defendendo que é preciso exigir que EUA, Irã e Israel cessem as hostilidades antes que seja tarde demais.

E a Europa?

A Comissão Europeia afirmou estar pronta para agir para proteger os interesses comerciais do bloco.

“Estamos em total solidariedade com todos os Estados-membros e seus cidadãos e, por meio da nossa política comercial comum, estamos prontos para agir, se necessário, para salvaguardar os interesses da União”, declarou o porta-voz para Comércio, Olof Gill.

O presidente do Conselho Europeu, António Costa, também manifestou solidariedade à Espanha, afirmando ter expressado “pleno apoio da UE” em conversa telefônica com Pedro Sánchez.

Já o vice-presidente executivo da Comissão Europeia para Prosperidade e Estratégia Industrial, Stéphane Séjourné, declarou que “qualquer ameaça comercial contra um Estado-membro é, por definição, uma ameaça contra a União Europeia”.

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