Ator nasceu em Salvador, mas cresceu no sertão da Bahia, em uma cidade destruída pela construção da hidrelétrica de Itaparica. A infância em Rodelas marcou a formação pessoal e artística do primeiro brasileiro a vencer um Globo de Ouro.
O caminho que levou Wagner Moura ao reconhecimento internacional começou longe dos grandes centros culturais do país. Embora tenha nascido em Salvador, foi no sertão da Bahia que o ator passou parte decisiva da infância e construiu referências que, anos depois, ajudariam a moldar sua trajetória artística.
Ainda criança, Wagner se mudou com a família para Rodelas, município localizado às margens do Rio São Francisco. Ele viveu na cidade até os 11 anos de idade, período marcado por uma transformação radical: Rodelas foi completamente destruída nos anos 1980 para dar lugar ao reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaparica.
A obra, iniciada durante a ditadura militar, tinha como objetivo ampliar a geração de energia no Nordeste, mas provocou o deslocamento forçado de milhares de moradores. Em 1986, trabalhadores rurais chegaram a ocupar a barragem em protesto contra a desocupação da cidade. Pouco depois, a antiga Rodelas foi inundada, dando origem ao Lago de Itaparica.
Wagner se mudou ainda criança para Rodelas, onde morou com a família até os 11 anos de idade. A permanência na cidade foi interrompida de forma abrupta nos anos 1980, quando o município foi destruído para a construção da Usina Hidrelétrica de Itaparica, no Rio São Francisco. A obra provocou o deslocamento forçado de toda a população local e deu origem ao Lago de Itaparica.
À época, o então menino Wagner chegou a falar com um repórter sobre a mudança. Em uma entrevista resgatada recentemente nas redes sociais, ele comentou, com naturalidade infantil, o impacto da decisão. “Não estava com vontade de mudar, não, mas agora já mudei”, disse. Em seguida, confessou o estranhamento com a nova realidade: “Lá, é tudo estranho para a gente”.
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Décadas depois, o contraste entre a projeção internacional do ator e a realidade social de Rodelas voltou a chamar atenção. Mais de 90% da população do município está cadastrada no CadÚnico em situação de pobreza ou extrema pobreza. O PIB per capita gira em torno de R$ 15 mil, e a cidade enfrenta desafios estruturais, como baixo índice de saneamento básico, número limitado de escolas e ausência de hospital de referência.
Apesar das dificuldades, Rodelas mantém forte identidade cultural, com vínculos históricos com comunidades indígenas e territórios tradicionais do sertão baiano. É nesse cenário que se inscreve a infância de Wagner Moura, marcada pela convivência com o interior nordestino e pelas consequências sociais de grandes obras de infraestrutura no país.
Na adolescência, o ator retornou a Salvador, onde iniciou os estudos em teatro e passou a se apresentar em espetáculos locais. Mais tarde, cursou jornalismo na Universidade Federal da Bahia, etapa decisiva para a consolidação de sua formação artística e política.
Em entrevista ao programa Papo de Segunda, em 2021, Wagner Moura resumiu a importância dessas experiências para a própria identidade. Disse ser resultado direto dos lugares onde viveu, do sertão da Bahia e da capital, das vivências culturais e humanas que o cercaram desde cedo.
“Sou resultado do lugar de onde vim, da minha infância, do contexto cultural onde fui forjado, tanto do sertão da Bahia quanto de Salvador”, afirmou o ator. “Do que vi, do que vivi, do que vi de produção cultural, de produção artística em Salvador, de estar ali naquela cidade com aquelas pessoas.”

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