PEDRO LOPES E THIAGO ARANTES
(UOL/FOLHAPRESS) – A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela dificilmente terá impacto direto na Copa do Mundo. O evento será entre 11 de junho e 19 de julho deste ano e terá como anfitriões os estadunidenses, além de México e Canadá.
Apesar da complexidade do cenário geopolítico, a avaliação no futebol internacional é que não há, neste momento, qualquer indicativo concreto de sanção que atinja os EUA -tanto no âmbito da federação de futebol quanto na organização do evento.
No sábado (3), uma operação sob as ordens de Donald Trump capturou o mandatário venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa. O presidente dos Estados Unidos anunciou, nos dias seguintes, que coordenará um governo de transição no país sul-americano.
Na última semana, governos e organismos multilaterais discutem possíveis violações de soberania, mas as tensões não se traduziram em consequências no futebol.
Historicamente, a Fifa só se move quando conflitos externos passam a interferir diretamente na organização de competições, no funcionamento das federações ou na viabilidade de jogos oficiais – o que, até aqui, não ocorreu.
O QUE DIZ O ESTATUTO
O Estatuto da Fifa prevê a possibilidade de suspensão de membros, mas estabelece critérios claros. Pelo artigo 16, uma federação só pode ser suspensa se houver violação grave de suas obrigações, decisão que cabe ao Congresso -por maioria qualificada- ou, de forma provisória, ao Conselho.
Não há previsão de punição automática por guerras, intervenções militares ou decisões de política externa tomadas por Estados nacionais. O foco do Estatuto está em temas como interferência estatal direta nas federações, discriminação, descumprimento de deveres institucionais e ameaça à integridade das competições.
O texto também reforça princípios como neutralidade política, promoção de relações amistosas e respeito aos direitos humanos, mas sem atribuir à Fifa o papel de árbitra da política internacional.
Na prática, a Fifa age quando o futebol deixa de funcionar.
“Se a Fifa aplicasse seu Estatuto à risca, já poderia ter punido, por exemplo, Qatar, Arábia Saudita e China, só para citar alguns, devido ao fato de que, na prática, as federações nacionais destes países não têm independência dos Estados e, em última instância, quem manda é o poder governamental, o que fere diretamente a exigência de não intervenção estatal nas federações previstas no Estatuto da Fifa”, afirma advogado Eduardo Carlezzo, especialista em direito esportivo.
Sobre a hipótese de punição aos Estados Unidos, Carlezzo é categórico. “A possibilidade da federação norte-americana de futebol ser punida devido aos fatos que presenciamos na Venezuela é nenhuma, por uma série de razões. A primeira, e mais óbvia, é a Copa do Mundo neste ano. Além disso, não podemos esquecer que Infantino e Trump mantêm uma relação muito próxima, a Fifa premiou Trump com o seu ‘Nobel da paz’, a Fifa possui um escritório fixo em Miami (transferiu todo seu departamento jurídico da Suíça para os EUA) e os Estados Unidos não são a Rússia”.
POR QUE A RÚSSIA FOI PUNIDA?
A suspensão da seleção e dos clubes da Rússia, em 2022, costuma ser usada como referência, mas o contexto foi diferente.
A decisão não ocorreu apenas pela invasão da Ucrânia -até porque o conflito começou em 2014, quatro anos antes do Mundial de 2018, na própria Rússia. O fator determinante, neste caso, foi a ameaça concreta de boicote.
Polônia e Suécia, adversárias dos russos na repescagem europeia para a Copa do Mundo de 2022, anunciaram que não entrariam em campo. Com jogos inviabilizados e o calendário em risco, a Fifa suspendeu a Rússia dois dias depois.
Foi uma medida com uma motivação muito mais esportiva do que política: o futebol, naquele momento, deixou de funcionar.
A QUESTÃO DE ISRAEL
No caso de Israel, apesar de críticas públicas, protestos e posicionamentos políticos de algumas federações, nunca houve ameaça direta de boicote a partidas marcadas.
A Espanha chegou a declarar que não disputaria uma Copa do Mundo caso Israel se classificasse, mas tratava-se de uma hipótese futura, sem impacto imediato no calendário. Como Israel não conquistou uma vaga no Mundial, a hipótese de um encontro entre as duas seleções está descartada.
A Noruega, um dos países mais vocais contra os ataques a Gaza, optou por reverter a renda do jogo contra Israel, pelas Eliminatórias, para as vítimas do conflito. Mas, em nenhum momento, a realização da partida foi colocada em risco. Sem jogos ameaçados, a Fifa manteve sua postura de neutralidade.
Israel disputa as Eliminatórias da Uefa, contra rivais europeus, por uma questão política: seria inviável jogar na Ásia, diante do boicote de vários adversários. No passado, a seleção também já fez parte da confederação da Oceania. Em 1970, na única vez em que se classificou para a Copa, teve de ser sorteada em um grupo diferente de Marrocos, que ameaçava boicotar o torneio.
SEM BOICOTE, SEM PROBLEMAS
So caso dos Estados Unidos, o cenário é ainda mais distante de qualquer sanção. Não há ameaça de boicote à Copa do Mundo, nem mesmo por seleções que poderiam ter razões políticas para isso, como Irã ou Haiti. Nenhum jogo está em risco, e a organização do Mundial segue normalmente.
Antes do sorteio dos grupos, em dezembro, a imprensa mexicana chegou a noticiar que o Irã seria sorteado no grupo do México, para não ter que jogar nos Estados Unidos durante a primeira fase. As bolinhas colocaram os iranianos no Grupo G, com Bélgica, Egito e Nova Zelândia, e três jogos nos EUA.
A Fifa foi procurada pela reportagem para comentar se a escalada de tensão entre EUA e Venezuela poderia ter reflexos esportivos ou disciplinares. Até o fechamento deste texto, a entidade não respondeu. O espaço segue aberto para manifestação.

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