Comportamento de moeda e Ibovespa acompanham maior apetite global por risco; Trump anuncia cessar-fogo de duas semanas no conflito no Oriente Médio; estreito de Hormuz é reaberto
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – O dólar recua mais de 1% nesta quarta-feira (8), após Estados Unidos e Irã firmarem um cessar-fogo de duas semanas no conflito no Oriente Médio. A trégua também prevê a reabertura do estreito de Hormuz, por onde passam cerca de 20% de todo o petróleo e gás natural liquefeito consumidos no mundo.
Às 14h28, a moeda norte-americana caía 1,06%, cotada a R$ 5,099, a caminho de fechar na menor cotação desde maio de 2024. Na mínima do pregão, o dólar atingiu R$ 5,065, em queda de 1,73%.
No exterior, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes, recuava 0,94%, a 98,91 pontos -a caminho da maior queda do índice desde 22 de abril de 2025, em meio à guerra comercial.
No mesmo horário, a Bolsa subia 2,14%, a 192.292 pontos. Na máxima do dia, atingiu 193.759 pontos, novo recorde histórico durante o período de negociações.
A valorização da Bolsa ocorre apesar da queda do petróleo, que pressiona as ações da Petrobras e de outras petrolíferas brasileiras.
Os contratos do Brent, referência global, e do barril WTI (West Texas Intermediate), referência dos EUA, eram negociados abaixo do patamar de US$ 100, despencando até 15%.
Por volta das 14h30, as ações da Petrobras caíam entre 5,84% (preferencial) e 5,48% (ordinária), enquanto Prio, PetroRecôncavo e Brava Energia recuavam 4,80%, 3,75% e 3,52%, respectivamente.
O principal fator do pregão é a trégua da guerra no Oriente Médio. Após dizer que “uma civilização inteira morrerá nesta noite” e ameaçar obliterar a infraestrutura civil do Irã, Donald Trump recuou novamente e aceitou na terça-feira (7) uma proposta feita pelo Paquistão para um cessar-fogo de duas semanas na guerra iniciada em 28 de fevereiro pelos Estados Unidos e Israel.
Em postagem na rede Truth Social, o americano disse que sua decisão se baseou no compromisso de que o Irã reabra Hormuz durante a trégua -Teerã disse que o fará por duas semanas “em coordenação com as Forças Armadas” iranianas.
“Esse será um cessar-fogo duplo”, escreveu Trump, visando acalmar os ânimos dos países árabes sob ataque de Teerã no golfo Pérsico.
“O motivo pelo qual eu estou fazendo isso é que nós já atingimos e excedemos nossos objetivos militares”, afirmou Trump, dizendo procurar um “acordo definitivo de paz de longo prazo com o Irã e paz no Oriente Médio” nesses 15 dias.
Desde o início do conflito no Oriente Médio, o dólar e os prêmios de ativos de renda fixa tem se valorizado por conta de uma maior busca por proteção dos investidores.
O cessar-fogo reverte o comportamento, aumentando o apetite por ativos de risco. Entre os países emergentes, 12 moedas se valorizam frente ao dólar -caso do real, rubia indiana e peso mexicano.
As Bolsas também tinham pregão positivo. Na Europa, o Euro STOXX 600, referência do continente, fechou em alta de 4,97%, similar aos índices de Frankfurt (5,06%), Londres (2,51%) e Paris (4,49%). Em Wall Street, as Bolsas Nasdaq, S&P 500 e Dow Jones avançavam 2,89%, 2,54% e 2,52%, respectivamente, por volta das 14h30.
No Brasil, o comportamento se repete. “A expectativa é de uma sessão positiva para a Bolsa brasileira, para os ativos domésticos, e para o real, que tendem a se beneficiar desse ambiente de maior apetite por risco”, diz Lucca Bezzon, especialista de inteligência de mercado da StoneX.
Para Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, o cessar-fogo motiva a busca por risco após semanas de volatilidade intensa. “Alivia a taxa de câmbio com a desmontagem de parte das posições de proteção do mercado. A queda do petróleo afasta parte do temor de inflação persistente, aliviando os juros futuros”.
Há ainda incertezas. O Irã concordou em permitir a passagem de navios pelo estreito de Hormuz, mas o tráfego permanece baixo.
Dados do monitor marítimo Marine Traffic revelam que apenas duas embarcações passaram pelo local nesta quarta-feira (8), horas após ser anunciado o cessar-fogo de duas semanas envolvendo EUA, Israel e Irã.
Diretores de segurança de empresas que navegam na via afirmam ainda aguardar detalhes técnicos antes de liberar os envios de navegações.
Segundo o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, uma das condições impostas pelo regime para a trégua foi Teerã ser responsável pela coordenação da passagem dos navios no estreito.
O Irã também condicionou a reabertura do estreito à interrupção dos ataques por parte de Israel e dos Estados Unidos. Nesta quarta-feira, Israel realizou o maior ataque a instalações do Hezbollah no Líbano, o que levou Teerã a ameaçar abandonar o cessar-fogo.
O bloqueio do estreito de Hormuz, por onde passam 20% de todo o petróleo e gás natural liquefeito consumidos no mundo, lançou a economia global em turbulência. O choque de oferta, considerado sem precedentes, está se transformando em uma crise energética que fez os preços do petróleo e produtos derivados dispararem.
A interrupção também pressiona a inflação global. O crescimento econômico antes previsto tem sido colocado em dúvida, bem como os próximos passos de alguns dos principais bancos centrais do mundo.
Tanto o Federal Reserve, dos Estados Unidos, quanto o BC (Banco Central) brasileiro citaram a guerra nas decisões do mês passado, diante do risco de pressão inflacionária global.
Na última segunda (6), o presidente do BC, Gabriel Galípolo, defendeu o que chamou de cautela da instituição na condução da política de juros no Brasil. Ele também afirmou que a sociedade não aceita mais inflação.
Na visão da XP, um prolongamento da guerra e preços de petróleo altos por mais tempo são os principais pontos de atenção do conflito, à medida que as expectativas de inflação local sobem acima da meta de 3% do BC.
Ainda assim, a XP vê o Brasil bem posicionado para enfrentar as turbulências da guerra, “dada a alta exposição ao petróleo e o potencial de seguir atraindo fortes fluxos estrangeiros, especialmente quando as tensões arrefecerem”.
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