O que é a Mar-a-Lago face, nova tendência estética dos apoiadores de Trump

“O melhor termo para descrever o rosto de Mar-a-Lago é ‘elegância atemporal’. São refinamentos sutis e procedimentos menores, como blefaroplastia, mini liftings faciais e peelings químicos. Não é algo exagerado e chamativo”, diz Ennis à Folha.

VITOR HUGO BATISTA
SÃO PAULO, SP (CBS NEWS) – No site do cirurgião plástico americano Scott Ennis, é possível encontrar uma página dedicada apenas para a “Mar-a-Lago Face” ou o rosto de Mar-a-Lago. São procedimentos estéticos que “enfatizam a definição suave das maçãs do rosto, um lábio superior ligeiramente elevado e a simetria geral”, diz um dos trechos.

“O melhor termo para descrever o rosto de Mar-a-Lago é ‘elegância atemporal’. São refinamentos sutis e procedimentos menores, como blefaroplastia, mini liftings faciais e peelings químicos. Não é algo exagerado e chamativo”, diz Ennis à Folha.

Desde o início de 2025, cirurgiões plásticos da capital dos Estados Unidos, Washington, têm observado uma onda de pedidos por procedimentos estéticos que se assemelhem ao rosto de Mar-a-Lago, conforme o site de notícias americano Axios.

A nova tendência faz referência ao resort de luxo em Palm Beach, no estado da Flórida, onde o presidente Donald Trump tem residência. Os cirurgiões disseram ao site que a demanda pelos procedimentos vem, principalmente, de pessoas próximas a Trump, e que elas não querem que os seus rostos passem despercebidos.

Ennis atua em Boca Raton, a poucos minutos de Palm Beach. Ele afirma que Mar-a-Lago se tornou o epicentro de bailes de gala e eventos sociais black-tie, muitos deles realizados pelo próprio Trump.

“As pessoas estão sempre bem vestidas, com visual elegante, roupas bonitas, smokings, joias e saem para jantares, bailes e eventos de arrecadação de fundos. E isso veio junto com Trump. Ele é uma pessoa muito social e sempre há eventos acontecendo em sua residência”, afirma Ennis, que já foi convidado para alguns deles. “Fui abençoado com convites.”

No consultório do cirurgião, pacientes chegam dizendo que as pessoas em Mar-a-Lago parecem ótimas, que gostam do que veem e querem algo semelhante. “Eles dizem ‘gosto do que vejo em Mar-a-Lago’. Então sentamos e analisamos o rosto para oferecer os procedimentos.”

Dentre as pessoas associadas a essa estética estão alguns nomes ligados ao presidente Trump e à elite Maga (Make America Great Again). É o caso de Kristi Noem, secretária de Segurança Interna dos EUA, Kimberly Guilfoyle, embaixadora dos EUA na Grécia, Laura Loomer, ativista política de extrema direita, e Matt Gaetz, republicano defensor do presidente norte-americano.

A Axios atribui a mudança estética em Washington a uma leva de pessoas vindas do sul da Flórida, onde fica Mar-a-Lago, e também como um ato calculado de alinhamento aos ideais estéticos preferidos de Trump.

Para Ennis, o rosto de Mar-a-Lago é o oposto da estética supervalorizada na série americana Baywatch, do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, que levou mulheres a pedirem seios e lábios grandes nos consultórios por décadas. “A Mar-a-Lago face é só uma coisinha pequena em vez de grandes transformações.”

A definição, porém, contrasta com a descrição feita pelo jornal britânico The Guardian, dizendo que os rostos de Mar-a-Lago são “feições incrivelmente lisas, artificialmente volumosas, com lábios inchados como picadas de abelha, sobrancelhas congeladas e pescoços tensos”, se assemelhando a “demônios da paralisia do sono”.

Em entrevista ao jornal, Anita Kulkarni, uma cirurgiã plástica de Washington, disse que antes do segundo mandato de Trump, não via muitos pacientes com pedidos absurdos. Mas desde a posse, ela conta que atendeu pelo menos meia dúzia de casos assim.

Ela disse que alguns chegam em seu consultório querendo mais preenchimento labial e que precisa dizer a eles que se colocarem mais vão ficar parecendo a Malévola, referência à vilã da Disney.
Alexandre Piassi, cirurgião plástico e secretário-geral da SBCP (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica), compartilha dessa mesma visão.

“O rosto de Mar-a-Lago é um exagero. Está muito na cara que foi feito algum procedimento”, afirma. “Você tem um lábio muito pronunciado, uma maçã do rosto superdefinida e um rosto congelado.”

Na perspectiva de Piassi, a tendência é fruto da dismorfia gerada pelos filtros do aplicativo Snapchat, resultando em mudanças tão radicais que acabam “entregando” as intervenções estéticas.

Para o médico brasileiro, a tendência atual no Brasil é o naturalismo ou a “quiet face”, a busca por resultados naturais, sutis e belos. “Não quer dizer que você não vai preencher, mas você vai preencher muito pouco.”

É o caso de um preenchimento labial mínimo, uma testa com pouco botox e sobrancelhas levemente elevadas, bem diferente da tendência de “cat eyes” -olho de gata- ou “fox eyes” -olho de raposa.
“O ideal é que, em festas ou no dia a dia, as pessoas digam ‘nossa, você está bem’, mas sem identificar o que foi feito no rosto”, afirma Piassi.

Ele afirma que para esses tipos de procedimento, o mais recomendado é procurar um cirurgião plástico ou dermatologista.

“São os profissionais mais habilitados para tratar da face do paciente. Eles estudaram por 12 anos. Seis de graduação e seis de especialização. Essa escolha é importantíssima”, disse.

O CFM (Conselho Federal de Medicina) disponibiliza um site para consulta sobre a especialidade dos médicos.

Alguns profissionais têm indicações do que podem ou não fazer. É o caso dos dentistas.

Uma resolução de 2019 do CFO (Conselho Federal de Odontologia) permite que cirurgiões-dentistas especializados em harmonização orofacial, com no mínimo 500 horas de curso, realizem alguns procedimentos estéticos, como botox, preenchimentos, lipoplastia facial e bichectomia.

No entanto, esses profissionais estão proibidos de realizar procedimentos cirúrgicos, como alectomia, blefaroplastia, lifting de sobrancelhas e rinoplastia, segundo resolução do CFO de 2020.

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