MARCOS GUEDES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Oscar Schmidt nunca jogou na NBA, mas tem sua trajetória no esporte ligada a algumas das estrelas da liga norte-americana de basquete. O brasileiro, que morreu na sexta-feira (17) aos 68 anos, optou por não defender o New Jersey Nets além de alguns amistosos, porém viveu momentos marcantes, pela ordem, com Kobe Bryant, David Robinson e Larry Bird.
Em 1984, quando se destacava no Caserta, da Itália, ele foi escolhido pelos Nets no Draft, o sistema de recrutamento de jogadores da NBA. Participou de cinco duelos de pré-temporada, porém não gostou do que chamou de “frieza absurda”. “Era uma cobrança incrível. Não me senti nada bem”, afirmou.
Pelas regras da época, atuar na liga dos Estados Unidos também o impediria de defender a equipe nacional brasileira. Até 1989, a participação no campeonato norte-americano tirava do atleta o status de “amador” e das competições entre países. “E a seleção era a coisa mais importante da minha vida”, disse.
Àquela altura, o potiguar já estava bem estabelecido na liga italiana, da qual foi cestinha sete vezes entre as passagens pelo Caserta (1982 a 1990) e pelo Pavia (1990 a 1993). Ele enfrentou diversas vezes o norte-americano Joe “Jellybean” Bryant, que defendeu quatro diferentes times na Itália de 1983 a 1991.
Joe ia frequentemente às partidas acompanhado de um garotinho chamado Kobe, que ficou impressionado com a capacidade do brasileiro de pontuar. Aquele menino se tornaria também um dos maiores cestinhas da história do basquete -e um dos melhores jogadores de todos os tempos-, sem esquecer-se de Oscar.
“Quando eu estava crescendo na Itália, ele era o cara. Fazia 35, 40 pontos por jogo. Eu nem o conhecia por Oscar. Sempre o chamei de La Bomba”, afirmou Bryant, em visita ao Brasil em 2013. Sempre que questionado sobre Schmidt, o norte-americano, que morreu em acidente de helicóptero em 2020, era reverente.
Vaidoso, o brasileiro se deliciava com os elogios do craque, a quem chegou a apontar como “o maior de todos”. “Quando ele me via, abria um sorriso, o olhar dele mudava. Você não consegue enganar o olho. Kobe tinha um carinho muito grande por mim, e eu, por ele”, disse ao UOL em 2020, saudoso do “menininho que entrava na quadra, ficava arremessando bola e não queria sair”.
“La Bomba” ainda jogava na Itália quando foi defender o Brasil nos Jogos Pan-Americanos de 1987, realizados em Indianápolis, uma das mais tradicionais cidades dos Estados Unidos no basquete. Na final contra os donos da casa, anotou 46 pontos a caminho de um resultado tão improvável que a organização não tinha nem o hino brasileiro para tocar: 120 a 115.
“Ser campeão dentro da casa deles, metendo 120 pontos, foi a maior alegria da minha carreira”, disse o camisa 14 da seleção, que enfrentou naquele dia David Robinson, então um jovem pivô de 22 anos. Justamente pela proibição de atletas da NBA em torneios internacionais, a equipe norte-americana era formada por universitários.
Alguns daquele time teriam longas carreiras na liga, como o ala Rex Chapman, mas nenhum construiu uma trajetória tão vitoriosa quanto a de Robinson, bicampeão com o San Antonio Spurs. Ele também fez parte do “Dream Team”, quando caiu a proibição, e foi bicampeão dos Jogos Olímpicos.
“Eu tinha ouvido histórias de que ele tinha um alcance muito grande [para arremessos do perímetro]. E tudo o que eu tinha ouvi era verdade. Nós tínhamos caras atléticos, defensores capazes. Isso mostra quão bom ele era”, afirmou Robinson, 26 anos depois da derrota na Market Square Arena.
Pela importância da vitória de 1987 e pelo currículo de Robinson, Oscar chegou a dizer que lhe pediria para ser seu padrinho na cerimônia de entrada no Hall da Fama Naismith, em Springfield, o mais prestigiado no basquete. Acabou optando por alguém de estatura ainda maior no esporte, Larry Bird, tricampeão com o Boston Celtics e três vezes eleito o melhor da NBA.
“O Oscar era um dos grandes pontuadores do nosso tempo. Era difícil pará-lo, você não podia marcá-lo só individualmente. A maneira como ele se movia para ficar livre criava qualquer arremesso que ele queria. O cara marcou mais de 49 mil pontos na carreira. É um dos melhores da história do basquete, e eu não poderia estar mais feliz por ele”, afirmou.
O vídeo de apresentação de Schmidt em Springfield, em 2013, teve também frases de Robinson e Kobe. Mas, apadrinhado por Bird, o brasileiro mudou opinião apresentada anteriormente e o apontou como “o cara”, decisivo apesar de um porte pouco atlético para os padrões da NBA. “O meu cara não corre, não pula. Este é Larry Bird, o melhor jogador de todos os tempos”.
Não era sobre Bird, porém, aquela noite, na qual Oscar recebeu seu grande reconhecimento. Muito emocionado, fez uma porção de agradecimentos, em especial para sua mulher, Cristina. “Este é o maior prêmio com que você pode sonhar, entrar no hall da fama do seu esporte. Tudo o que eu ganhar agora vai ser menor do que hoje.”

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