Um quarto dos paulistanos afirma que pouparia dinheiro gasto em bets se não apostasse, diz pesquisa

Pesquisa aponta que parte dos paulistanos deixaria de apostar online para guardar dinheiro ou pagar despesas básicas. Levantamento também mostra aumento no número de pessoas que recorrem a empréstimos e ajuda financeira para continuar usando plataformas de bets

(FOLHAPRESS) – Mais de um quarto dos paulistanos (26%) afirma que guardaria o dinheiro gasto em apostas online caso não utilizasse plataformas de bets, segundo pesquisa da FecomercioSP (Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo). O percentual cresceu em relação a 2024, quando era de 19%.

O levantamento mostra ainda que parte dos recursos hoje direcionados às apostas seria usada em despesas essenciais: 14% dizem que utilizariam o dinheiro para pagar contas domésticas e 13% para comprar alimentos.

“É um ponto preocupante. Os níveis de inadimplência do país estão muito elevados, então essas pessoas buscam uma forma de ter mais recursos e aumentar sua renda. Essa vulnerabilidade financeira que traz um risco muito grande de comprometer ainda mais o orçamento das famílias”, afirma Kelly Carvalho, assessora econômica da FecomercioSP.

Segundo a pesquisa, 35% dos paulistanos afirmam apostar para aumentar a renda doméstica de forma rápida -dez pontos percentuais acima do registrado em 2024, quando o índice era de 25%.

Entre as famílias com renda de até dois salários mínimos, o percentual sobe para 40%. Na faixa entre dois e cinco salários mínimos, é de 30%, enquanto entre famílias com renda entre cinco e dez salários mínimos chega a 29%.

Por outro lado, caiu a proporção de entrevistados que dizem apostar para investir: de 9% em 2024 para 5% neste ano. Já 7% afirmam se considerar viciados em jogos online.

Metade dos entrevistados (50%) diz apostar com frequência, índice semelhante ao observado há dois anos. O hábito é mais comum entre pessoas de renda baixa e média do que entre as de renda mais alta.

O levantamento também mostra diferenças entre homens e mulheres sobre o destino que dariam ao dinheiro gasto nas apostas. Entre as mulheres, 18% afirmam que usariam os recursos para comprar comida e o mesmo percentual diz que pagaria contas domésticas. Entre os homens, os índices são de 11% e 13%, respectivamente.

Já os homens aparecem mais entre aqueles que afirmam que guardariam o dinheiro: 28%, ante 18% das mulheres.

Outro dado considerado sensível pela FecomercioSP é o percentual de pessoas que já buscaram ajuda financeira para continuar apostando. Segundo a pesquisa, 12% dos paulistanos afirmam ter recorrido a algum tipo de auxílio por causa das bets.

Desse total, 5% pediram dinheiro emprestado a amigos ou familiares, enquanto 4% recorreram a empréstimos bancários. Outros 2% afirmaram ter pedido ajuda ao empregador e 1,5% disseram ter antecipado o 13º salário.

“O Desenrola [programa de renegociação de dívidas] tem uma cláusula de que o CPF da pessoa que conseguiu o desconto não pode estar em plataforma de bets. Mas nada impede que esse indivíduo use o documento de algum outro membro da família”, diz Kelly Carvalho.

Apesar disso, o valor gasto mensalmente segue relativamente baixo. Mais da metade dos entrevistados (54%) afirma desembolsar até R$ 50 por mês nas plataformas. Outros 16% gastam entre R$ 50 e R$ 100, enquanto 12% dizem apostar entre R$ 100 e R$ 200 mensais.

Segundo a FecomercioSP, o perfil predominante ainda é o do “pequeno apostador”, embora tenha crescido o contingente de pessoas que gastam até R$ 100 por mês nas plataformas.

A entidade relaciona o avanço das apostas à maior exposição das plataformas nas redes sociais, à popularização dos meios de pagamento instantâneos e à facilidade de acesso pelos celulares. De acordo com o estudo, 96% dos entrevistados afirmam usar Pix para realizar os pagamentos das apostas.

O cenário ocorre em meio ao aumento do endividamento das famílias paulistanas. Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) de abril, também da FecomercioSP, 72,9% das famílias da capital paulista estavam endividadas -o maior nível em três anos. Destas, 21% estavam inadimplentes.

“Há necessidade de políticas públicas para uma regulamentação mais forte. Bloqueio automático das plataformas não autorizadas e ilegais, monitoramento do Pix para realização de apostas online e a elaboração de programas de orientação e proteção aos consumidores”, afirma a especialista.

A pesquisa ouviu 600 pessoas na cidade de São Paulo entre os dias 4 e 8 de maio, por meio de questionário online estruturado. A margem de confiança é de 90%.

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